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De conversas com uma brothinha sobre a forma como a vida é, os amores que temos e tivermos assim como os/as crush que possuímos, surgiu uma brincadeira e reflexão sobre a maneira como em nossos tempos os relacionamentos e até mesmo a forma de gostar e sentir tem se tornado cada vez mais dinâmica e “liquida”.

Quando falamos de liquido, remetemos diretamente ao conceito de liquidez na era pós moderna desenvolvida pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman, que a modo ligeiro, fala da velocidade com que as coisas são transformadas, readaptadas e até mesmo se tornam em outras com extrema velocidade, possuindo significados e representações diferentes para cada individuo. Dai a relação com liquidez devido a velocidade com que as coisas na vida moderna fluem. O conceito de Bauman vai muito além disso e é deveras profundo para tratar neste texto. Aqui nos interessando somente sobre a velocidade de transformação e a forma como sentimentos e pessoas acabam adquirindo efemeridade.

Amores e sentimentos líquidos.

Durante muito tempo, em virtude dos meios de comunicação de massa e indústria cultural desde a popularização da literatura com grandes epopeias românticas das mais conhecidas como Romeu e Julieta e até mesmo o louco do Dom Quixote, dentre outras bem mais antigas ou mais modernas, as relações humanas têm sido pautadas especialmente por um contexto romântico e sobrenatural que trabalha com destino, com o “fomos feitos um para o outro” e “não faz sentido viver sem você”. Tais ideias se popularizaram e fizeram com que após a idade média, a era do amor entrasse em voga e a necessidade de estar com, ter alguém para chamar de seu/sua e ser retribuído(a) se tornou algo popular, que para muitas pessoas vira mote de vida.

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Hoje conseguimos observar que as pessoas estão cada vez mais voltadas para si mesmas, deixando de focar em relacionamentos debruçadas em um “quê” romântico para buscar a satisfação de prazeres ou emoções de momento, se tornando o depois algo de menor ou nenhuma importância. Isto ocorreu devido insistentes debates e a abertura das pessoas sobre temáticas que foram tabus durante muito tempo, especialmente no que se refere a sexualidade.

Hoje é muito comum vermos garotas que declarem sem a menor amarra: “ah e daí? Eu só queria pegar ele, transar e pronto, só pra matar a vontade e depois tchal”. Esse pensamento no meio masculino sempre foi comum, o que muda é que o pensamento das pessoas tem dado a sexualidade o tom que realmente possui, algo extremamente popular e até mesmo banal. Quando digo banal, por favor não entenda que estou afirmando que sexo se tornou algo que você pratica muito simplesmente como dar uma corrida no começo da noite. O que quero dizer é que as pessoas estão mais abertas a experimentar e ousar, a consequência disso é que a separação entre sexo e “amor”, tem se tornado cada vez mais clara. Some isso ao sentimento de hedonismo e individualismo cada vez mais comuns e chegamos ao que interessa: amor liquido.

Você ama alguém hoje? Está apaixonado(a) por alguém? Mesmo que a sua resposta seja sim, muito provavelmente isso não te impeça de ficar com outras pessoas, ou até mesmo de transar sem culpa. Não importa se você é homem ou mulher. O mais curioso é que essa liberdade que as pessoas se dão para se relacionar mais livremente com as outras, independentemente de existir fator emocional preponderante ou não, acaba conferindo maior poder de desapego. Quantas vezes você já se apaixonou nos últimos dois anos? Você que está apaixonado(a) hoje por alguém, isso te impede de conhecer novas pessoas e se dar a oportunidade tentar outras relações caso não tenha uma relação estável com quem você é apaixonado(a)? Muito provavelmente não.

Até mesmo estar gostando de alguém se tornou algo liquido, pois hoje você gosta muito, amanhã mais ou menos, depois de amanhã mais ainda e de repente você nem sabe se ainda gosta. Você começa a ficar hoje com uma pessoa, quem sabe fique amanhã e semana que vem muito provavelmente vão tocar somente uma amizade comum ou quem sabe nunca mais se falar. O tesão, a paixão e o amor se tornaram elementos condicionados ao interesse e ao momento do indivíduo, como sempre foi porém, desta vez com uma curva de tempo e vida útil que são cada vez menores e mais ligeiros.

Quando éramos adolescentes (hoje tenho basicamente 30 anos), se apaixonar e viver aquela avalanche de sentimentos intensos era o mote da nossa geração. Eu chorei bastante por causa de namorada, fiz loucuras, briguei com gente, fiz declarações loucas, escrevi poemas e etc… Você vê os adolescentes de hoje em dia tão assim? Certamente não. Eles se apaixonam, se relacionam e tem a intensidade próprias da idade, só que se tornaram bem mais individualistas e com capacidade de superação bem mais veloz do que nós tínhamos em nosso tempo de colégio.

Compreendido que os tempos mudaram e que os sentimentos tem se tornado líquidos, podemos também concluir que assim como o amor, a paixão e especialmente o desejo sexual se dando ai o fato de sexo casual, relações como P.A e B.A e abertas terem se tornado cada vez mais comuns, pautadas basicamente por uma quedinha e leve interesse, podemos passar para o próximo estado da coisa: o(a) crush liquido, ou pessoas liquidas.

O(a) crush liquido

Quando eu era adolescente, você conhecia as pessoas pessoalmente ou através de chats como o IRC, deste ponto em diante você tinha que desenrolar conversas até a pessoa aceitar te adicionar no MSN Messenger e posteriormente te ter como amigo(a) no Orkut até paquerar e ir conhecer ao vivo. Era assim que você tinha acesso as pessoas e era assim também na minha época de adolescência que se paquerava e caçava. Ligar para as pessoas era comum e o envio de SMS era algo de certa forma caro e extremamente fundamental. Mas e hoje? Hoje temos verdadeiros cardápios virtuais de pessoas que ao se cadastrar em aplicativos de relacionamento, estão se colocando de maneira clara, a disposição para conhecer gente e experimentar relacionamentos. Estão ali para isso.

Tinder, Badoo, Lulu, Lovoo, Adote Um Cara, Zhosk, Par Perfeito e muitos outros. São inúmeros os aplicativos baseados em geolocalização que te dão acesso a pessoas reais e próximas no seu bairro e cidade. Isto somado a facilidade de conseguir contato e conversar, proporcionado pelas tecnologias mobile de comunicação fez com que a grosso modo, nos dias de hoje só não descole uma foda casual quem não quer. Estes aplicativos são verdadeiros cardápios de pessoas que estão ali para ver no que dá: um lance rápido, sexo casual, novos amigos bacanas, namoro e etc…

Isso fez com que as pessoas acabem tendo também um prazo de validade e fixação na vida da gente bem mais frágeis, pois o que vem fácil vai muito fácil. Vou falar quanto a minha experiência com esse tipo de aplicativos: já conheci muitas garotas legais pela internet, poucas tive real interesse em conhecer pessoalmente, dessas poucas algumas foram sexo casual e outras se tornaram amigas que trago até hoje, mas nunca se comparou as paixões que tive ou conheci de maneira inesperada e fora da internet.

Não sei se é por ser da escola antiga quanto a métodos de relacionamento, pessoas de aplicativos ou pela internet, mas para mim acabam sendo mais “liquidas”. Não teve a descoberta olho no olho, os jogos de palavras e resistência para ver qual é a da pessoa e se também está interessada nem todo aquele lance que alguns vão qualificar erroneamente como romântico, mas que eu que sei de mim, qualifico simplesmente como contato e química pessoal. Eu tenho sim mais interesse e fixação por pessoas que conheço e venho a me interessar fora da internet. Mas este sou eu, Diego. Conheço muitas pessoas que se valem de aplicativos com o argumento de que são péssimos na arte do flerte, então pela internet se torna mais fácil. Ok, viva a modernidade. Mais uma vez vemos como as coisas se tornam liquidas pois o que para uns não soa tão interessante assim, para outros se tornou a salvação (risos).

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Como o acesso as pessoas se tornou extremamente facilitado, a condição de perder interesse em alguém e trocar por outra pessoa nova também. Crushs se tornaram líquidos. Você conhece alguém hoje, dar uns beijos e amanhã quem sabem nem está mais interessado(a) pois tem outra novidade. Some esse contexto da facilidade e acesso as pessoas juntamente com o que conversamos sobre amor liquido, então você poderá ver como em nossos tempos as relações afetivas e amorosas são algo tão solto e livre que seria inimaginável em uma ou duas décadas no passado.

Se você tem alguém de que gosta e isso perdura, camarada para os dias de hoje é algo raro ou você está realmente ficando velho (risos). Ou não, como já dissemos: o conceito de amor e relacionamento se tornou liquido, logo é possível se gostar de alguém durante longos períodos de tempo até mesmo vendo esta pessoa esporadicamente, se relacionando com outras e vivendo bem a parte disso. As vezes até penso que “amor” no que se refere a liberdade de sentir e se ter alguém nos dias de hoje atingiu um nível de leveza incrível.

Ainda voltado para a minha própria experiência, eu realmente gosto de uma pessoa já tem um tempo, o que nunca me impediu de nada nem causou problema nenhum. Até recentemente inclusive decidi guardar isso só para mim por julgar sensato, e isso não me faz ter aquelas viagens loucas de sofrimento e solidão. Inclusive eu acredito piamente no trecho da música que diz “solidão me deixe forte, talvez resolva os meus problemas”. No contexto em que vivemos hoje, as coisas e pessoas mais te libertam do que te prendem quando a coisa é sadia. Vivemos em um mundo em que você não é absolutamente obrigado(a) a nada.

Os crushs se tornam líquidos até mesmo na maneira em que as relações são formatadas, sejam elas abertas, soltas, exclusivas, duradouras, pautadas por sexo ou companheirismo, fatores emocionais e etc… Tudo acaba ficando condicionado a personalidade e maneiras de ver o mundo que os indivíduos envolvidos desenrolam.

Cada vez menos os jovens falam em não casar e até mesmo não construir família, pois a ideia de estar sozinho e não ter alguém, a questão da solidão acaba sendo também liquida, uma vez que se você tem alguém que não está presente, não significa que a pessoa seja ausente. O que considero mais incrível nesta liquidez toda é que no final das contas você acaba perseguindo algo que em alguns momentos você não sabe o que é e quando descobre, já não tem certeza se ainda é aquilo ou se já foi. Se for diferente disso, meu camarada a pessoa realmente é importante para ti. Parabéns.

Então é isso. Assunto longo, cheio de detalhes, mas este blog não pretende ter textos teóricos tipo os da Carta Capital. Então o papo aqui é esse. Qualquer coisa emita a sua opinião seja ela qual for nos comentários deste post. Tchal!

Acauã Pyatã
Na maior parte do tempo: publicitário e blogueiro, nas raras horas vagas um tremendo vadio de skate e desocupado no Insta. Insurgente, divergente e procrastinador. O tipinho de cara que escolheu morrer de pé ao ter que (sobre)viver de joelhos, alguém que escolheu ser a navalha ao invés da carne, um homem que absolutamente não é obrigado a nada, entendeu? N-A-D-A. Um maldito índio moderno em uma arcaica selva de pedra que um dia haverá de cair. Mas não agora, não mesmo. Fale com ele pelo e-mail: diego@derepente.blog.br