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Amores, voltei!

Sinceramente eu iria preferir não estar dirigindo, por mais que eu goste de fazer ultrapassagens, a noite estava linda, eu queria poder apreciar as luzes da cidade através do vidro embaçado pela chuva na janela do banco do carona. Faz tanto tempo, passei um ano fora de casa e ser recebida com aquela tradicional chuvinha ao cair da noite me trazia bons presságios. Estava de volta. E isso era bom.

Antes de viajar para passar um ano fazendo pesquisas no Peru, deixei as chaves do carro com Alessandro. Foi uma surpresa receber uma mensagem dizendo que meu carro estava no estacionamento do aeroporto e alguém iria deixar as chaves. Ao abrir a porta do carro me deparei com um envelope no banco do motorista, antes de dar a partida o li, nele Alessandro dizia ter mexido seus pauzinhos para saber o horário do meu voo com alguém da minha agência de viagens, pedia que eu o encontrasse no motel de sempre, no mesmo quarto, que tinha tudo pronto para me recepcionar.

Abalados os meus planos de ouvir um jazz ao seguir para a minha casa e contemplar as luzes dos enfeites do Círio na Doca, me contentei em colocar o bom e velho rock no último volume e dirigi até onde fui “ordenada”. Alessandro tem um sorriso que quando se abre faz surgir umas rugas nos cantos dos olhos que são lindas, me tentam a ser mais flexível com ele, o fato de ter sido meu psicólogo e saber o que me acalma o favorece. Tocava Back to Manhattan* quando abri a porta, quarto à meia luz, incenso de rosas vermelhas – seria mais a cara da Camila me receber com “patexulí”. – Dei uma risadinha que se conteve quando ele virou para mim:

– Acho bom você mexer bem esse seu pauzinho para conseguir um emprego novo para quem te ajudou. Já foi demitido. – O disse sem muito ar de donzela ao me servir de whisky.

– Por que você tem que ser sempre assim tão incisiva com tudo? – Tomou o whisky da minha mão e deu um gole generoso.

– Você sabe que esses arranjos manipuladores, invasão de privacidade e cabresto rosa disfarçados de romantismo não me convencem e tão pouco me interessam. – Olhos negros e olhos azuis se fitavam profundamente.

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– Vai ver eu gosto de te irritar de alguma forma. Vai ver não haja outra maneira de te chamar a atenção sem ser invasivo. Às vezes não dá para esperar pela sua boa vontade. – As mãos deles se encontravam à altura da minha cintura.

– Ou vai ver você gosta de saber qual vai ser a minha reação incisiva e sem piedade para as suas tentativas frustradas de me ter nas mãos.

– E não está?

– Por enquanto. Enquanto tiver jazz, whisky e chuva.

Olhou para o palito que prendia meu cabelo, o puxou e ficou a olhar meu cabelo cair por sobre os ombros, ainda longos, ainda negros, de certa forma contrastavam com minha pele acobreada. Passou o polegar nos meus lábios, tirou o excesso de batom, ele odiava ficar com a boca toda manchado do vermelho difícil de remover. Pensei que fosse me beijar, mas ao invés disso, enfiou o rosto entre meu pescoço e meus cabelos, respirou fundo como se quisesse registrar meu cheiro ou reativar lembranças. Suas mãos desceram devagar da minha nuca até o decote da minha blusa nas costas, fechei os olhos ao sentir o leve arrepio. Mas logo me espantei quando senti minha roupa ser rasgada.

– Eu lhe dou outra. – Ele riu ao ver minha cara de interrogação.

   Eu estou acostumada a ser pega com desejo, ver nos olhos do outro arder uma vontade louca como se fossem duas bolas de chama viva, mas tinha esquecido por um ano o que era a explosão de desejo misturada com saudade, é como querer entranhar na pele do outro, eu sentia que se ele pudesse, invadiria minha pele para nunca mais sair naquele momento que parei para fitá-lo depois que fui jogada na cama. Tirou sua camisa depressa, a jogou para a parede e mergulhou literalmente em mim. Imagino que nessa hora três grandes listras vermelhas desenharam suas costas, só fui ver o estrago que eu tinha feito depois.

   Foi mais difícil se livrar da saia lápis do que da blusa, mas não demorou muita coisa para ele estar com a cabeça enfiada entre minhas pernas, minha respiração ofegante fazia meu cabelo voar de cima do meu rosto, naquele momento que você não sabe o que fazer, se puxa os próprios cabelos, se puxa os dele, se dá uma chave de coxa em volta do pescoço dele ou arreganha-se mais ainda na ilusão de que ele entre todo em você. Me contive em segurar a cabeceira da cama, mas o frio da pedra me incomodou, segurei seus braços e apertei mais e mais à medida que sua língua não parava quieta na minha buceta até os músculos da minha coxa entrarem em colapso e era preciso eu segurar os joelhos para não sair dando chutes.

– Eu já gozei! – Gritei, mas fui ignorada.

   Mais uma vez veio a confusão, mais uma vez as pernas tremeram, mais uma vez um orgasmo saiu quente. Bati nas suas costas.

– O que foi? – Ele levantou o rosto e perguntava com cara de desentendido.

– Eu já gozei duas vezes. Tempo? – Fiz um T com as mãos.

   Alessandro se arrastou para cima de mim até alcançar minha boca e me beijar.

– Salgadinho? – Piscou.

– Idiota! – Respondi depois da gargalhada. – Cheiro de buça.

– Você gosta, que eu sei. – Se jogou para o lado procurando espaço para as costas largas.

– Eu senti ambiguidade nisso aí. – Fiquei com o olhar fixo no teto. A luminária estava quebrada. Precisa ser trocada, pensei.

– Camila já sabe que você chegou? – O tom passava de brincalhão para sério em poucos segundos. Impressionante.

– Eu acredito que ela não tenha persuadido ninguém para saber do meu voo, também não avisei da minha volta e quando cheguei estava muito ocupada ligando para a agência e reclamando sobre a falta de discrição. As pessoas se corrompem por tão pouco.

– Todos os jogos do Leão pagos por um ano.

– Como eu disse, por tão pouco. – Virei de lado e encostei a cabeça em seu ombro. – Ela me falou semana passada de um rock bar novo que abriu no Marex enquanto estive fora. Queria ir na minha moto, como não emprestei, quer que eu a leve, disse que vou adorar. Sei que ela não sabe esperar por nada, não quero ser grossa logo de chegada, então… entre a agitação dela e sua calmaria, aqui estou.

– Eu queria que você tivesse comigo o mesmo cuidado que tem em não desapontá-la. – Ajeitou o braço embaixo da cabeça. Também olhava para o teto, mas creio que não pensava no defeito da luminária.

– Cada um recebe aquilo ao qual se sujeita.

Minha unha comprida do indicador seguia o traço do seu nariz ao queixo, fazia isso enquanto pensava que eu não podia fazer nada pelo seu desejo de querer mais do que eu posso dar, pensei também que uma conversa semelhante me aguardava só que ao invés de delinear o rosto de Alessandro, vou enrolar os cachos vermelhos de Camila enquanto ela provavelmente dedilha Kathryn Dean no violão. Retribuir o oral seria a maneira mais inteligente de parar a conversa em ambas as situações. O ciúme tolo sumia pouco a pouco de seu rosto enquanto ele arrumava meu cabelo como quem fosse fazer um coque para poder ficar olhando meus lábios carnudos no movimento de sobe e desce. Começa a tocar Told You So**, mas não era momento de lembrar que Camila pensa que ainda estou no Peru, os dois sabem com quem se meteram, estiquei o braço e passei a canção, mas não parei o que estava fazendo. Olhei para cima e deu para fazer uma leitura labial: “Safada”.

Alê já tinha se segurado bastante durante os vinte minutos que o fiz se contorcer e quase arrancar meu cabelo entre uma sugada e outra. Já dava para sentar.

– Parou o choro? – Sentei devagar no seu pau que ainda estava duro.

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 A resposta foi uma virada por cima de mim, minhas pernas postas por cima de seus ombros penetradas fortes e lentas que foram acelerando aos poucos. Dava para olhar para baixo e ver o movimento da penetração, mas ele puxava meu queixo para cima para poder olhar para minha cara gemendo.

– Sabe que não vou fingir para você. – Falei achando graça, fazendo-o lembrar que eu faria questão de deixar claro se não estivesse bom.

– Eu sei disso. – Virou o rosto, mas mesmo assim começou a rir. Desacelerou. – Para com isso. – Respirou e voltou ao ritmo.

– O que foi doutor? Psicólogos não trabalham sob pressão?

– Vou te mostrar a pressão. – Fez mais forte e mais rápido.

As unhas cravaram nos ombros, instintivamente quis olhar para baixo, mas a mão grande veio no pescoço inclinando meu queixo mais uma vez. Apertei os olhos, mordi forte os lábios. Lembro de ter o ouvido perguntar se eu queria mais, não sei se respondi, mas ele continuou. Gozamos e esperamos o suor dos corpos esfriarem ainda grudados um no outro, dava para sentir seu pau relaxar dentro de mim aos poucos. Tirou todo o cabelo que estava bagunçado no meu rosto, beijou-me a testa, enfiou o rosto mais uma vez no meu cabelo e soltou todo seu peso em cima de mim. Dei dois tapas no ombro para ele saber que precisava sair para eu respirar. Jogou-se ao lado e brincou com meu mamilo até dormir.

   Amanheceu. Transamos outra vez. Como de praxe, perguntou se me veria logo. Apenas sorri. Uma coisa de cada vez. Levantei e me enrolei para ir ao banheiro. Ele se virou de bruços.

– Fecha a porta quando sair. – Balbuciou com a voz abafada no travesseiro.

– Eu? Feche você! A propriedade é minha. Levante-se e dê o fora que eu preciso dormir depois dessa viagem.

– Você comprou o motel? – Preguntou sentando-se na cama.

– Sim. Há dois meses. Há séculos casamento, amor, traição, sexo não passam de uma grande fonte de lucro.

– Você deixou eu pagar a pernoite sendo a dona do motel. – Revirou os olhos enquanto procurava suas chaves após ter se vestido.

– Querido! Eu não fiquei milionária dando… desperdiçando meu tempo de graça. Você foi o primeiro cliente depois que entrei aqui como proprietária, foi um sorteio legal, admita. – Liguei o chuveiro.

– Ok. Vou somar todas as suas consultas e as minhas garrafas de Bourbon que você esvaziou. – Gritou ao caminhar para a porta.

– Manda para o meu administrador! – Gritei do chuveiro.

– Senti sua falta. – Falou baixo achando que eu não ouviria, mas já tinha desligado o chuveiro a essa hora. Fechou a porta.

– Eu também. – Abri o box. – Eu também.

* Norah Jones

** Kathryn Dean

Bella Carvalho
Aspirante à tantas coisas foi cursar museologia, contista em horas vagas e de insônias. Ainda não sabe se é só de zoeiras ou da vibe do amor, mas de uma coisa essa morena tem certeza, entre o nascer e o morrer, aproveitemos os carnavais e bacanais. Fale com ela pelo e-mail: bella@derepente.blog.br