Por estes dias uma garota começou uma conversa comigo através da internet, querendo trocar umas ideias sobre assuntos diversos sobre sexualidade e a forma como as pessoas acabam vendo e rotulando as pessoas. Com o avançar do papo, a mesma realizou um desabafo impressionante, que como homem me fez pensar muito sobre a forma como muitos de nós ainda tratamos com mulheres. Digo muitos de nós pois na condição de homem não posso deixar de me sentir de certa forma responsável por isso e envergonhado quando tomo ciência de situações assim. É o tipo de coisa que faz pensar que grandes problemas podem começar com o aparentemente inofensivo e divertido “ei psiu! ê gostosa!” de relance na esquina.

Eu pedi para ela para publicar este relato e ela concordou desde que protegida pelo anonimato, para que você que é homem leia. Tenho certeza que garotas ouvem muito sobre isso por ai e eu não posso deixar de concluir que o mundo seria um lugar sem necessidade de viver na retranca para elas se simplesmente alguns de nós parassem de ser idiotas. Leia com atenção manolo, com cuidado e com a mente aberta, pois o texto é sobre ela, mas pode quem sabe ser motivado por alguém como você. Infelizmente alguns de nós ainda pensam que podem fazer o que querem.

———————————— Inicio do texto original ————————

Lendo o texto Sou homem eu não tive como deixar de levar para o lado pessoal ao notar o quanto nós somos manipulados ao tentar identificar o nosso papel na sociedade. Eu não vou dizer que já passou, que eu ponho a cabeça no travesseiro tranquilamente e não pense ainda: “a culpa foi minha?”. Há cinco anos, eu saí com uma amiga para uma festa, na época eu não me importava em sair sozinha pra um barzinho, de vestir uma roupa um pouco mais ousada, às vezes não era nem por ser ousada, era só por conforto mesmo. Eu sempre achei que: eu pago as minhas contas, eu estudo, sou independente, poderia seguir a minha vida da maneira que eu achasse melhor sem me importar com o que as pessoas falassem.

Nessa noite nós bebemos demais e nas poucas vezes que isso aconteceu, eu não me recordava de nada no dia seguinte, lembro de me sentir ruim e ter saído de perto da tal amiga, a festa estava lotada e no estado que eu estava não me situava muito bem. Quando saí do banheiro, eu sei que alguém me puxou pelo braço, eu tentei soltar, mas fui levada pra um canto escuro. Eu tinha noção do que eu não queria, que eu queria voltar pra onde a minha amiga estava, mas era como se meu corpo não obedecesse as minhas tentativas de reação. Então eu parei de tentar reagir e só chorei. Eu não sei como cheguei em casa, não falei nada com ninguém, acordei com um pouco de ardência, então fingi pra mim mesma que nada tinha acontecido, eu não lembrava de um rosto e isso me perturbava. Isso poderia ter passado e eu esquecido, mas o pesadelo começou quando eu descobri que estava grávida, e como eu não tinha namorado e passei um bom tempo isolada depois do ocorrido, só poderia ser daquela noite.

Eu chorava todo o dia, me culpando por ter bebido, me culpando por ter saído, me culpando por estar de vestido, eu me culpava porque eu não sabia a quem culpar e isso me dava vergonha e eu continuei sem falar nada. Apesar de não aceitar aquele filho imposto a mim, eu não tive coragem de fazer um aborto, de qualquer forma, era uma vida, uma vida que não tinha culpa. Com o tempo passando e mesmo que eu não falasse, as pessoas supunham que eu tivesse me envolvido com alguém casado que não quisesse assumir. Pra ser bem franca, eu não confirmava mas também não negava. Por mais estranho que pareça, as pessoas acham mais normal, mais aceitável você cometer um vacilo, não se prevenir e acabar grávida do que ter sido violentada e o resultado ser o mesmo, o fato é que havia um casal amigo da família, casados há treze anos e nunca puderam ter filhos, quando tentaram adotar um, a mãe biológica tomou de volta para dar para outro casal, ela soube da minha situação, porque o que eu não conseguia esconder era a minha negação com aquela gravidez, então quando a criança nasceu, eles ficaram com a criança.

Foi dolorido, porque eu não sabia o que sentir: remorso pelo o que eu tinha feito, raiva de mim mesma outra vez por ter me colocado naquela situação ou se me sentia um monstro por não sentir absolutamente nada por aquele bebê que acabava de nascer, era como se eu tivesse apagado completamente da memória o que me aconteceu naquela noite. Até hoje o que me vem na cabeça são apenas as circunstâncias em que eu estava, o resultado e o que fiz depois. Eu não tinha planejado engravidar, já tinha uma filha grandinha, tinha me separado há pouco tempo, tinha decidido continuar meus estudos, eu estava cheia de planos e o que me deixava mal é que mesmo sabendo que eu não tinha culpa, eu nunca parei de me condenar, quando vi meu nome na lista de aprovados na universidade eu não sabia se eu me sentia feliz ou olhava para trás e me sentia a pessoa mais egoísta. O fato é, que eu queria desconstruir essa ideia de que sou eu que deveria ter evitado, de que eu, como mulher, que devo ter lugares pra frequentar e horário pra voltar pra casa, de que eu como mãe biológica seja obrigada a ter um amor incondicional que eu não consigo ter, queria poder ter certeza de que ao falar isso, as circunstancias não minimizassem a dor que senti, queria por uma hora entender que eu fui a vítima e não a vilã.

Talvez a pergunta seja: “por que você ficou calada?”. Eu não sei se é simples de entender, mas nós fomos educadas por nossas mães que nós é que temos que nos dar o respeito, nos guardar e não nos colocarmos em uma situação que “suscite o desejo” de um homem sobre nós, quando você quebra essas “regras” é como se você tivesse causado tudo, e isso te gera uma vergonha. A sociedade tende a classificar a violência sexual contra a mulher como: onde ocorreu, em que se circunstâncias e quem é a vítima. É uma espécie de Velho Testamento, se uma mulher for violentada e gritar, apedrejem o homem, se ela não gritar, apedrejem os dois. É muito difícil admitir que você se embriagou e não foi capaz de pedir socorro, é como se inconscientemente você aceitasse que recebeu uma lição, então é mais fácil esquecer e evitar os olhares de julgamento e dúvida, “será que ela não consentiu?”, “Ela nem é capaz de dizer quem foi, de tão embriagada que estava?”.

Pra tentar enterrar, eu me vesti num personagem do Isso não aconteceu, em geral, as mulheres ficam inseguras, amedrontadas e traumatizadas, eu tentei ao máximo não me encaixar nessas características e aos poucos fui adquirindo uma personalidade que quase ninguém pudesse imaginar que eu tenha passado por uma situação igual, as mudanças de comportamento foram sutis, que só eu identificava o motivo, quando parava pra analisar, aumentei o peso, perdi mais a vaidade, evito festas, raramente ingiro álcool (nunca faço isso sozinha ou com desconhecidos), e quando eu tive que escolher, entre ficar com um filho fruto de uma violência e continuar minha vida de onde parou, eu decidi correr, correr o mais longe que eu podia das lembranças daquilo e eu continuei correndo até parar os olhos em um texto que em sua essência me dizia: a culpa não é sua.

——————————————— Fim do texto original ——————————-

Acauã Pyatã

Na maior parte do tempo: publicitário e blogueiro, nas raras horas vagas um tremendo vadio de skate e desocupado no Insta. Insurgente, divergente e procrastinador. O tipinho de cara que escolheu morrer de pé ao ter que (sobre)viver de joelhos, alguém que escolheu ser a navalha ao invés da carne, um homem que absolutamente não é obrigado a nada, entendeu? N-A-D-A. Um maldito índio moderno em uma arcaica selva de pedra que um dia haverá de cair. Mas não agora, não mesmo.

Fale com ele pelo e-mail: diego@derepente.blog.br