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Ainda bem que o Peixotão não fala, foi o que pensei naquele fim de tarde, sentada em um banco da praça Barão do Rio Branco, no mesmo banco onde há uns dezessete anos eu perdia minha virgindade. Às vezes sinto falta de morar naquela rua, de sair dos saraus e comer aqueles lanches de esquina, depois vir com os amigos caminhando até a praça. Alguns desciam pra pegar o bonde na outra rua e tinha o Carlos, garoto que já fazia faculdade de engenharia, mas gostava de literatura e morava próximo a mim, sempre ficava pra me acompanhar até meu prédio.

Essa noite em particular, ficamos debatendo sobre o melhor autor que se apresentou na noite, ele sempre puxava saco dos mais “intensos”, digamos assim, eu era a romântica e gostava dos poemas melosinhos.

Não me recordo bem o nível da conversa, mas sei que chegamos ao ponto de beijos e amassos mais quentes (eu era mocinha, que meigo!) e claro, as mãos bobas nesse período sempre rolam. Naquela época eu ainda acreditava em casar virgem, ter um cara só pra mim, era forjada na cultura do ciúme. Hoje acredito que se algo pode ser mudado variando de cultura para cultura, eu vou me apegar a isso pra quê? Pra quê? Óbvio que não é legal sair por aí metendo galho na cabeça dos outros, enganando e depois simplesmente dizer “olha, essa coisa de ciúmes não faz parte da minha cultura!”. Não é bem isso, mas eu sempre deixo claro que eu sou de todos e não sou de ninguém, sou quase um patrimônio sexual da humanidade (Isso foi ótimo! Eu falei mesmo isso? Hahahha).

O senhor gostoso Carlos, de olhos azuis da cor do céu, com a promessa de que iria se casar comigo mais tarde, após a formatura, me comeu alí mesmo no banco da praça. Não preciso entrar em detalhes sórdidos porque se alguma mulher me disser que sua primeira vez foi um conto de fadas, eu digo na cara dela que é mentira. Dói, é incômodo, traumatizante e já fiz masturbações muito melhores do que a minha primeira vez. Ele por cima de mim não estava causando muito efeito, já que eu choramingava pra ele ir devagar e hoje quando estou transando e lembro desse detalhe, percebo que ele estava praticamente parado, eu que era mole mesmo. O cabaço só foi para o brejo mesmo quando percebi que não tinha mais jeito e iria ser “desonrada” daquela forma mesmo, levantei minha saia, me sentei em seu colo e deixei que penetrasse com jeito. O filho da puta me puxou, uma dor horrível eu senti entre as pernas, mas foi breve. Eu me movimentava com a ajuda dele que era mais experiente e o único a sentir algum prazer naquilo, parávamos por instante sempre que notávamos que alguém ia descendo pela rua e eu fazia uma cara de paisagem, até arriscava a dar um boa noite.*

Bem, Carlos foi embora alguns meses depois. Nunca mais o vi, hoje tenho trinta e dois anos e… feliz por ele ter sumido no mapa. Já imaginou eu casada? Eu também não, pelo menos não até aquela noite que eu fui visitar meu antigo bairro.

Uma visita ao bairro da Campina, em Belém, não é a mesma sem ir ao bar mais famoso da Manoel Barata, onde também peguei meu primeiro porre, levei uma surra igualmente inesquecível. Lá já tenho o meu copinho garantido e com meu nome gravado de tanto frequentá-lo assiduamente.  Eu não preciso pedir, o garçom já vem sempre com minha cachaça de bacuri. Acho mais vantajoso fazer amizade com o garçom ou dono de bar do que com essas madames da “alta sociedade” de Belém, não dão em nada.

Só que… estranho, não foi o Miguel quem trouxe minha segunda dose de cachaça! Levantei os olhos e percebi que um loiro lindo de olhos claros me servia.

-Você cresceu, nem parece aquela magrela desengonçada. – disse o sujeito, deixando meu copo sobre a mesa.

– Desculpe, eu o conheço de algum lugar?- Perguntei, olhando e querendo lembrar vagamente daquele queixo com uma pequena cicatriz um tanto que charmosa.

– Eu pensei que o primeiro homem de uma mulher fosse inesquecível, que decepção!- puxou uma cadeira e se sentou com sua cerveja preta na mão.

Não pude acreditar no que meus olhos viam e não reconheciam.

– Ah! Nossa! Carlos?! Seu… merdinha. Onde você foi buscar minha aliança, no Pasquistão?

– Em Londres, pra ser mais exato. Eu perdi totalmente o contato, e mesmo, das poucas vezes que venho aqui, são viagens rápidas. Só que dessa vez vou demorar um pouco mais, já estou aqui há quatro meses. Sempre venho aqui as sextas, fecha mais tarde, ando meio sem tempo, torcia para algum momento te encontrar. Você não conhece redes sociais?

– Não gosto muito de expor minha vida por aí. Não tenho essa necessidade de atenção, e no mais… – disse enfatizando um certo despeito. – Quem realmente me é interessante, sabe onde me encontrar.

Ele me deu uma olhada minuciosa da cabeça aos pés, creio que procurando resquícios da Janaína de apenas 15 anos que ele viu pela última vez, sem encontrar, deu um sorriso de canto de lábios com ar vitorioso:

– E então, está pronta pra nos casarmos? – ele falou isso tão naturalmente que eu me choquei.

Dei um salto na cadeira e me engasgando com a bebida:

– Cof! Cof! Você pensa nisso? A gente era criança e eu mudei tanto, meus conceitos são outros totalmente diferentes do que aqueles diante do Peixotão. Casar? Deus me livre!

– Não é exatamente um casamento, Janaína. – ele riu – é só um evento um tanto que particular, só pra amigos íntimos que gostam de uma onda um pouco mais pesada. – empurrou um papel pra mim, achei aquilo meio 50 tons, mas li mesmo assim.

Olhei séria, li, reli e tornei a olhá-lo:

– É sério isso?

– Por que o espanto? Pensei que seus conceitos haviam mudado, que era uma mulher de mente mais aberta… Mas se é demais pra você, tudo bem, eu só queria que fosse com a garota que eu desonrei. – ele riu ironicamente.

– Pois fique o senhor sabendo que eu topo sim. – retruquei triunfante. – Me diga data, horário e local que estarei lá a caráter.

– Domingo, não se atrase. Quando você chegar a este endereço – me deu um outro papel, só que menor – suas damas de “honra” te darão as instruções.

Ele saiu do bar, dando um até logo àquele que nos viu tomando apenas um inofensivo Baré em seu balcão.

O grande dia.

Na manhã de domingo eu havia marcado cabelereiro, manicure e depilação, na hora marcada eu lá estava, fui de táxi, deixei minha moto em casa mesmo, me arrependi disso no meio do caminho, vai que eu me arrependesse? Mas já era tarde.

Entrei direto para a sala que me foi indicada, as damas estavam aguardando minha chegada, o que eu usaria em meu casamento estava sobre o sofá. Era chegada a hora de entrar.

Quando duas moças abriram a porta a minha frente, mais duas me seguiam, segurando o meu imenso véu, que por sinal, além da máscara, era a única coisa que eu usava. Eu quase parei e fugi quando dei de cara com vários homens e mulheres nus ou com apenas roupas íntimas esperando a minha entrada, havia uma média de doze pessoas mais o Carlos que me aguardava adiante, respirei fundo e fui. Quando li o papel que ele me dera no bar, o avisei que não mostraria meu rosto, o véu cobriria minha tatuagem e não seria assistente de pau, sou egoísta e gosto de exclusividade, ele concordou com meus termos, seria quase que uma núpcia exibicionista. Tenho certeza que em um casamento de verdade eu não me sentiria tão nervosa quanto alí, cada passo em direção ao meu “noivo” parecia eternidade, e como despida eu já estava, a sensação era de ser penetrada literalmente pelos olhares do salão. Quando cheguei até Carlos, as garotas me deixaram e procuraram seus parceiros. Havia uma cama baixa no lugar do que seria o altar, era só uma fantasia dele de se casar e minha de ter uma plateia me vendo transar, o rumo que aquilo poderia tomar era imprevisível.

Ele olhou meus olhos através das aberturas da máscara, sorriu. Era uma máscara que cobria a metade do rosto, de tal forma que meus lábios carnudos ficavam expostos, ele me beijou. Me pôs na cama e as pessoas se concentraram ao nosso redor, fiquei imaginando como seria se o Tom Cruise tivesse levado a Nicole Kidman para aquela orgia em “De Olhos Bem Fechados”, me imaginei no lugar dela e deixei o tesão me guiar, era a vez de Carlos me compensar e me dar o devido prazer. Sua boca quente percorria meu pescoço sob olhares atentos, as mãos grandes deslizavam pelo meu corpo úmido de óleo perfumado que as damas me banharam. Me senti a jovenzinha de anos atrás, me escorreguei pelo corpo experiente dele, agora sim eu sentia meus músculos definidos se enrijecerem com seu toques, a boca se abria com fúria ao sugar meus seios. Êxtase, era o que definia aquele momento, minha libido nunca esteve tão aflorada. Com as unhas cravadas nas costas dele, tirei a boca de seu pescoço e olhei para os demais, pareciam animais acorrentados e famintos, esperavam só o momento de atacar a presa, me vi alí como um pedaço de carne que estava prestes a ser jogado aos cães.

oculmesDe repente não apenas nos olhavam, mas se tocavam. Se acariciavam, sem deixar de nos olhar, seus corpos se entrelaçando pareciam fazer um convite, pude entender na hora, que meu olhar direcionado a eles surtia efeito igual. Senti Carlos me penetrar. Minha cabeça estava fora da cama, de um jeito que eu via tudo de cabeça para baixo, enquanto sentia aquele pau grosso e mediano fazendo movimentos intensos dentro de mim. Vi alguém dançando para dois homens em cima de uma mesa de bilhar em um canto da sala, em outro canto, uma mulher se contorcia sobre um sofá ao ser chupada por alguém. Lembro de ter puxado o véu e o jogado para longe, Carlos sentou-se sobre as próprias pernas e me puxou para cima de seu colo, me encaixou, como em nossa primeira vez, só que naquela noite eu rebolei com ritmo de experiência inigualável, alternando a velocidade e a profundidade das penetrações. Meu orgasmo era tamanho que não me incomodei com aquelas mãos delicadas e estranhas massageando meus seios, alguém em pé na cama masturbava e passava uma rola negra e grande no meu rosto, como se suplicasse minha atenção, as mãos que me tocavam, com um jeito prático me desvencilhou de Carlos, com uma mão me estimulava e com a outra virava meu rosto e me beijava, um beijo quente e cheio de desejo, eu estava sem a máscara e aquilo já não me importava, tão pouco o fato de abrir os olhos e notar que era beijada pela minha dama de honra que me soltou e se aninhou embaixo de Carlos, me deixando por conta do homem negro e forte que a chupava minutos antes no sofá.

O pau carente de atenção fodia minha boca com vontade, me fazendo engolir o máximo que eu pudesse, olhei pra cima e notei que ele parecia um deus de ébano, tão imenso e belo. Me virou de costas, me fez ficar de quatro, o mesmo fez Carlos com minha dama, de maneira que ficamos as duas de cara uma para outra, soltei um leve gemido quando senti meus cabelos sendo puxados e o estalado da palma de Carlos na bunda dela me fez olhá-lo, este me retribuiu o olhar com outro mais sacana e movimentando os lábios em silêncio, mas pude entender o “goza pra mim” e eu gozei, gozei bastante e ela também, senti vontade de beijá-la novamente quando que no ato do orgasmo ela mordia os lábios e assim o fiz. Senti um jato quente em minhas costas, meu parceiro havia gozado, como ainda estava de quatro, algumas gotas do esporro de Carlos caiu no meu rosto. Me levantei e nem ao menos olhei para o rosto da moça e do rapaz com quem havia feito um swing, me dirigi a uma porta onde mais cedo descobri ser um banheiro, Carlos veio atrás de mim.

– Você já vai? – perguntou ele com um tom de pesar.

-Sim. – respondi – Foi gostoso e tudo mais, só que você não espera que eu fique aqui pra dormir com você, espera? Eu sou bastante espaçosa, sabe.

– Esperava, mas compreendo que não queira ficar. A gente se vê novamente?

– Talvez. Eu te ligo se eu estiver afim de uma terapia de casal.

Gostos desses casamentos modernos, cada um na sua casa. Meu Bourbon e minha cama me esperam.

* Trecho baseado na primeira vez da autora… (Sim, foi em uma praça pouco movimentada e soturna mesmo, algo contra?)

Bella Carvalho
Aspirante à tantas coisas foi cursar museologia, contista em horas vagas e de insônias. Ainda não sabe se é só de zoeiras ou da vibe do amor, mas de uma coisa essa morena tem certeza, entre o nascer e o morrer, aproveitemos os carnavais e bacanais. Fale com ela pelo e-mail: bella@derepente.blog.br