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– Sabe o que eu mais gosto na sua cozinha? – eu disse sentada com as pernas encolhidas em cima do balcão – É que ela é bem espaçosa. Olha esse balcão! Eu poderia transar tranquilamente aqui em cima.

Alessandro olhou pra mim com uma cara maliciosa, abriu um sorriso, eu gosto do seu sorriso. Trazia duas taças em uma mão e uma garrafa de vinho na outra. Me serviu.

– Como vai ser hoje? Eu te faço um oral enquanto você me conta seu dia ou te pego por trás e você vai falando entre uma estocada e outra?

– Que grosseiro! – eu disse me acabando em risos e pegando a taça de sua mão. – mas gosto da ideia do oral, eu me ajeito aqui no seu imenso balcão e você puxa aquele banco ali e faz a sua arte.

– Droga! Esqueci de me barbear. – ele falou já se levantando.

– Não precisa. – toquei seu ombro e o fiz sentar novamente. – isso vai ser legal. Por onde começo?

– Não sei. O que te trouxe aqui hoje, além do meu talento linguístico? – tentava buscar um início pra nossa conversa enquanto tirava minha calcinha. – Notei que a notícia do jornal te incomodou hoje lá na portaria. Quer falar a respeito?

– Sabe o cara que sofreu um acidente de carro em Salinas e morreu?

– Sei.

– Eu o conhecia. E estava longe de ser um bom moço como a mídia pintou.

Na verdade, que eu me recordo, ele era bem perverso, se é que me entende.

Seu nome era Nero, mas o conheci como Gavião numa noite qualquer de agosto do ano passado. Tinha um pessoal tocando e dançando kizomba na Praça da República, eu estava lá no Bar do Parque, mas desci pro meio da rodinha. Estava vindo de casa, então lembro de estar de short jeans e regata curta, cabelo bagunçado, caindo no rosto. Olhei aquela dança, me balancei um pouco, movimentei a cintura nua, os cabelos balançavam seguindo o ritmo do meu quadril, sei que alguém me observava, esperei que olhasse em outra direção, e quando assim o fez, saí de seu campo de visão. Agora eu o observava me procurar. Gosto quando as pessoas me tratam como presa, mas na minha cabeça, elas são. Sentada no banco, com as mãos entre os joelhos, segurando um beck, puxei, prendi e soltei a fumaça e por entre a mesma vi aquele homem grande caminhando na minha direção, tão imponente no seu um metro e oitenta e dois, ombros largos e fortes, todo despojado com sua regata branca e calça preta, os dreads longos bem feitos, era um negro muito bonito, o verdadeiro guerreiro esculpido em ébano.

– Esse é dos bons mesmos? – ele perguntou já se sentando do meu lado.

– Não costumo gastar meu dinheiro com produtos de má qualidade. E você, creio que não costuma provar do que vende, certo? – arqueei a sobrancelha ao perguntar, ele me devolveu o gesto com um olhar curioso.

– Garota esperta. Dança comigo que eu posso perdoar esse seu atrevimento. – puxou-me pela mão e me levou bem para o meio da roda, talvez pensasse que eu fosse bancar a tímida que não sabe rebolar devagar e dar passos lentos para frente e para trás. O segui.

Minha mão era minúscula dentro da sua, minha coxa, por mas que fosse grossa e torneada, se encaixava tímida entre suas pernas, sua mão direita nas minhas costas, vez ou outra se fechava em punho e descia para controlar meu rebolado. O cara que sabe conduzir bem uma mulher em kizomba, não precisa ser muito bom de lábia, entre um movimento e outro ele pode deixar bem claro para ela onde ele quer terminar aquela dança, assim sendo, quando mais casais entraram na dança, ele me arrastou para aquele banheiro da praça da República, eu parei um instante e tentei soltar sua mão:

– Pra onde você está me levando? – olhava para ele e para a porta.

– Ué, não foi você quem disse que eu sou o dono da boca? Nesse caso, não vejo perigo de entrarmos.

Havia umas duas pessoas lá dentro, que saíram imediatamente sob seu olhar severo. Não sei o que me excitava mais, o lugar sujo e inusitado, ele por si só ou o medo que naquele momento eu sentia dele. Nós dois a sós e eu fui dominada, não mandava em mim, não tinha pra onde correr, e mesmo que corresse, dois sujeitos mal encarados estavam na porta do lado de fora, eu simplesmente seria trazida até ele pelos cabelos, se é pra ter cabelos puxados, seria melhor que ele puxasse, e puxou, assim que me virou contra a parede, apertou fortemente meu bumbum e me fez afastar um pouco as pernas, seus dedos cravaram minhas coxas como se quisessem adentrar a pele, sentia seu hálito quente no meu ouvido, sua voz rouca dizendo que iria me devorar. Não tive tempo, nem escolho de me fazer de difícil, na verdade nem gosto desses joguinhos de mulherzinha insegura que não sabe amanhecer sem um homem ao lado a chamando de meu amor, não procuro por romance, também não corro dele, apenas traçamos rotas diferentes. E enquanto o povo cantava e dançava lá fora, no banheiro, eu literalmente gritava. Gritava de prazer, rasgava as costas de Nero sem pena, usava as forças de minhas pernas para me manter encaixada em sua cintura, enquanto ele me dava os beijos mais quentes, nem senti dor quando minha cabeça se chocou contra a parede e ele bruscamente me penetrou. Foram estocadas lentas e intensas que não demoraram pra me fazer gozar. Fiquei tonta depois do orgasmo. Ele me inclinou minha cabeça para trás puxando meus cabelos, beijou meu pescoço e me falou pra sair, disse que me encontraria e que eu nunca entrasse ali sozinha.

– Você está me falando que transou naquele banheiro com um traficante, Janaína? É isso? – Alessandro me perguntou isso com uma cara de idiota que achei melhor ignorar. – Esses caras matam, roubam pessoas, isso não te incomoda? – seu tom passou de idiota para preocupado.

– O tempo que os meus relacionamentos duram com as pessoas são os breves instantes que estou com elas, aqueles minutos, segundos, são envolvimentos intensos, algo que não sentirei com mais ninguém e não pensarei em mais ninguém. Quer algo mais duradouro e mais fiel do que a eternidade dentro de um instante bem vivido? As escolhas que as pessoas fazem após vestirem suas roupas e darem as costas não é mais problema meu. Não, o que fazem antes que eu apareça ou depois que vou embora não me incomoda e muito menos me interessa.

Dias depois eu estava de moto, saí da avenida Perimetral e seguia na João Paulo II, ali próximo a AP, dois moleques me abordaram armados, me fizeram descer da moto, antes que eu entregasse, um carro parou, três caras também armados os mandaram embora. Fiquei atônita, sem reação de falar qualquer coisa, apenas tive peito de me recusar a obedecer quando me mandaram segui-los.

– Não vou mesmo!

– Bem, moça. Se você não for por vontade própria, eu posso pegar uma carona na garupa da sua moto e não vai ser um passeio confortável… pra você. O que a senhorita prefere?

– Ok, tenho escolha?

Não, eu não tinha.

Ao chegar ao local, uma mansão por sinal, o portão se abriu, deixei minha Harley na garagem, fui recepcionada pelo todo temido do norte, Gavião.

– Olá, seja bem vinda! – veio todo sorriso em minha direção.

– Isso é jeito de procurar uma mulher? Você pensa que eu sou o quê? Teus becks pra você ficar me enrolando e mandar buscar escoltada na rua? Minha moto quase foi roubada, eu quase pego um tiro. Isso é sequestro, tá me ouvindo? Eu poderia te denunciar.

– E vai? – ele me perguntou em tom irônico.

– Eh… não! – respondi com uma calma que se instalou em mim não sei de onde.

– Vem, eu mandei te buscar porque acabei de voltar de Dubai com meu irmão que é cirurgião plástico…

– Olha, alguém na família quis estudar, interessante.

– Por que me insulta? Sou formado em relações internacionais. Sem dualidade, por favor. Venha!

Passamos por um jardim de inverno, fui conduzida até uma sala cheia de velas, pétalas de rosas espalhadas pelo compartimento e um aroma de incenso de rosas vermelhas tomava conta do lugar.

Me ordenou que tirasse a roupa, obedeci. Ele me olhava sério, como se estudasse meus movimentos, me despia sem sequer desviar por um instante meus olhos dos seus.

– Agora deite de com as costas viradas para cima. – indicou com a mão uma mesa ao centro, tornei a obedecer. – feche os olhos.

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Senti um líquido escorrer pelo meu corpo, a sensação era boa, melhor ainda era suas mãos deslizando pelo meu corpo com aquele óleo perfumado. Os dedos, firmes, pontilhavam por toda a extensão da minha pele, fazendo brotar sensações jamais afloradas antes. Senti suas mãos tocarem meus pés, subirem em movimentos lentos e firmes pelas minhas panturrilhas, coxas, bunda, costas, meus braços. As pontas dos dreads tocaram de leve minhas costas, o que me fez arrepiar o corpo inteiro, fui virada de frente e suas mãos ainda viajavam pelo meu corpo, atingiam meus seios e ali se demoravam, depois de quase uma hora inteira nesses movimentos ele disse que havia chegado o momento de tocar meu YONI (órgão genital feminino na massagem tântrica), fiquei ansiosa, já estava em êxtase, desejava não só a mão, mas sim aquele homem inteiro dentro de mim. Seus dedos eram suaves ao me tocar, ele se concentrou no meu clitóris em toques circulares, foi mais intenso quando notou que minhas pernas se tremiam, e eu gozava intensamente, um orgasmo diferente de tudo o que já gozei, quando já não me aguentava mais, parecia que uma bomba explodia da minha boceta e o fogo me consumia por inteira, então ele parou.

Eu não sei se você vai me compreender, mas o sexo em si, naquele momento não foi necessário, eu fui ao ápice do prazer apenas sendo tocada, é como se eu fosse o mundo e Nero um explorador, e buscou com suas mãos de ébano do paraíso todos os centímetros da minha pele, posso dizer que gozei por todos os poros e me levantei quase que flutuando. Ele me vestiu e disse que se quisesse me ver novamente me encontraria. Bem, ele me forçou a ir vê-lo ainda umas duas ou três vezes, da ultima vez me alertou para não cair na cama de seu irmão cirurgião plástico, que por sinal era seu gêmeo e muitas de suas garotas já haviam sido encontradas nas ruinas do Murucutu por bem menos. Mas, pelo que eu soube foi ele quem foi encontrado por aí. Que coisa, não?

– Você não se comoveu ou não ficou nem um pouco abalada? – me perguntou Alessandro, beijando meu joelho.

– Não. – respondi com indiferença. – as pessoas não vão ficar para sementes. E o que eu posso fazer? Eu apenas estou certa de que uma hora ou outra elas saem da minha vida por qualquer que seja o motivo, a morte pode ser um desses motivos. Tudo tem começo e fim, tem seu ciclo e tudo flui. – toquei seu queixo e levantei sua cabeça, sorri pra ele. – por hoje é só.

– Você vem amanhã?

– Não sei, talvez eu bata na sua porta se você voltar a comprar Bourbon. – falei isso olhando decepcionada para o seu armário.

– Uma certa pessoa não me deixou mais tomar sequer uma dose, parei de comprar.

– Ora, essa! Você tem meu boquete de graça.

– Eu sou psicólogo, te ouço e ainda assim não mandei lhe internar.

– Ok. Você venceu, te trago um amanhã.

– Acho justo. Boa noite!

Fechou a porta.

Bella Carvalho
Aspirante à tantas coisas foi cursar museologia, contista em horas vagas e de insônias. Ainda não sabe se é só de zoeiras ou da vibe do amor, mas de uma coisa essa morena tem certeza, entre o nascer e o morrer, aproveitemos os carnavais e bacanais. Fale com ela pelo e-mail: bella@derepente.blog.br