– Eu vou à sua casa mais tarde e nós iremos juntas de lá. Levo umas bebidas pra gente. Leva erva. – Falou-me Camila ao telefone antes de desligar.

-Ok. Não demora. Traz os teus equipamentos e materiais de anotações. Vamos de carro, leva uma roupa extra e toalha. – Respondi.

Minutos depois, Carlos também liga:

-Vamos sair pra jantar hoje? Voltei de viagem e você não saiu comigo uma vez sequer. Nosso casamento na irmandade não foi tão simbólico assim, pelas normas, você tem que honrar alguns compromissos. – Disse com aquele tom despreocupado e galante de sempre.

– Não vai rolar mesmo. E outra, não pedi isso, você impôs. Se entenda com seus amiguinhos nerds que não têm uma vida social muito ativa, mesmo depois da faculdade. – Desliguei.

Liguei para Rafael Wester:

– E então, você vai poder ir com a gente? – Falei séria, sem segundas intenções.

– Sim. Já separei material, roupa e um lanchinho. Sei que você curte umas paradinhas em trabalhos de campo. – Falou meio tímido. – Vai dar a maior larica depois.

– Tá ok. Gentil da sua parte. Saímos uma da manhã. – Desliguei.

Casaco, ok. Meus óculos, ok. Câmera, ok. Drogas? Drogas? Drogas? Também ok. Saí caminhando descalça pela casa e prendendo o cabelo em um coque enquanto juntava minhas coisas. Uma mensagem fez vibrar o celular, era Alessandro querendo conversar. Nossa! Nem estamos juntos e ele já quer discutir relação. Mais uma mensagem dele esta semana ignorada com sucesso. Tocou a campainha. Camila chegou, junto com Rafael, já que se encontraram no elevador.

– Espero que já tenham se apresentado e me poupado desse trabalho? – Disse ranzinza por conta do grude de Alessandro. Não que eu não sentisse sua falta, mas preferia que ele batesse na minha porta e rasgasse minhas roupas assim que eu a abrisse do que ficar me mandando mensagens. Quem gosta de palavras são escritores, gosto de atitudes.

– Quinze pra uma. Partiu, Mosqueiro? – Perguntou Camila.

– Vamos! – Falamos Rafael e eu juntos.

Descemos para a garagem, colocamos nossas coisas no carro e saímos do condomínio. Nesse mesmo momento, Alessandro também estava de saída, não o vimos. Entrou na caminhonete preta e resolveu sair atrás de nós. No cruzamento da Diogo Móia com Romualdo de Seixas, passamos pelo carro de Carlos que estava indo para o meu apartamento, deu seta para a direita e também seguiu o meu Jeep Renegade de cor salmão. Lucas estava atrás de Camila, mas quando viu meu carro saindo de casa, não teve dúvidas de que ela estaria comigo. Começou a perseguição daquela noite e eu nem percebi.

– Posso? – perguntou Camila ao indicar o som do carro.

– Uhum! – consenti, mantendo os olhos fixos na estrada. Já estávamos na BR.

205f748582f22ff0849bc34484d17701Começou então a tocar Girl on fire da Alicia Keys, olhei para Camila, que cantava de olhos fechados, percebi o quanto eu adorava aquele seu jeito delicado e romântico, era engraçado ver seus cachinhos loiros saltitarem pelo seu rosto, fez cara de chateada quando a mandei colocar o cinto. Olhei pra Rafael pelo retrovisor, tinha colocado os fones de ouvido e cogitava dormir, aumentei o volume do som e comecei a cantar pra fazer Camila sorrir novamente.

Já passávamos a ponte quando Rafael acordou, esfregou os olhos, perguntou se ainda demorava, respondi que não. Conversava com Camila sobre seu trabalho da faculdade, me disse que só precisava que eu a ajudasse com as fotos de algumas constelações, da lua, o texto ela já tinha pronto, só faltava editar, seria coisa rápida e poderíamos aproveitar a madrugada na praia. Em alguns minutos chegamos, o baralho das ondas de Maraú parecia cantar para nós. Descemos do carro, Camila colocou as cadeiras na areia, Rafael louco para fotografar já foi logo arrumar o tripé e procurar o melhor ângulo, a lua estava linda.

Acendi um baseado e fui molhar os pés, as ondas estavam bem agitadas às duas da manhã, logo depois das fotos eu iria mergulhar. Faróis de carro me chamaram a atenção, olhei para ver quem era. Carlos desceu do carro, logo em seguida uma Hilux preta conhecida estacionou e uma CB 300 acabava de chegar. Só poderia ser um pesadelo. Que raios eles faziam ali? Pensei. Carlos veio na minha direção com passos calmos, por nada perdia o bom tom, a classe. Isso às vezes me excitava e às vezes me irritava demais, nunca tinha certeza de quem ele realmente era. Por outro lado, Alessandro saiu da caminhonete e vinha feito uma bala, passou levando Carlos no peito, chegou até mim primeiro. Seus olhos azuis pareciam arder em bolas de fogo. Jamais seria capaz de me agredir fisicamente, então parou, respirou, continuei calada.

– É assim? Você vai me ignorar até quando?

– Era só até você se vestir de homem e vir me encarar. Foi difícil? Sabe que não tenho saco para coitadismos.

– Eu te mandei várias mensagens, de nenhuma obtive retorno. Você quer me pirar? Ah! Qual é? Eu digo que te amo e você vem curtir na madrugada com esse moleque? Porra, Janaína cresce. – falava enquanto me seguia, já que em resposta apenas sorri ironicamente, lhe dei as costas e caminhei até a Canon que estava programada pra tirar fotos em sequência. – Eu estou falando com você! – gritou e chutou o tripé da câmera.

– Meu trabalho, Alê! Mas que porra! – Camila veio juntar o equipamento.

– Eu não te vi, desculpe. – Alessandro falou envergonhado.

– Depois sou eu quem precisa crescer. – falei enquanto ajudava Camila a remontar o tripé.

A pessoa da moto era o Lucas, juntou um parafuso que faltava e estava caído no chão, entregou para Camila, que o olhou incrédula.

– Até você? Veio atrás de mim ou da Janaína? – perguntou Camila indiferente.

– De você, suas desculpas foram esfarrapadas. E pelo visto eu estava certo, você ainda continua se encontrando com essa aí. – Lucas ainda não havia se decidido se me desejava ou me odiava.

Carlos sentou ao lado de Rafael que estava com uma garrafa de vodka, pediu licença, encheu um copo e tomou um gole.

– Não sei pra que tanto alvoroço. Conheço Janaína desde o quê? Seus treze, quinze anos? Quinze anos. Só vai usar esse cara e chutar depois. Por mim, todo mundo acendia uma fogueira, abriria mais uma garrafa de whisky, fumava uns baseados, transava, dava um mergulho e iria embora, só vim porque não tinha nada de interessante pra fazer em Belém. – Carlos pegou um violão que Rafael levou e começou a tocar Otherside. Rafael simpatizou com aquele carinha estranho.

– Não sente ciúmes dela? – perguntou Rafael a Carlos.

– Não. Janaína é um espírito livre. Como diz a canção, ela é só dela e de ninguém mais. Só tenho pena do rapaz aí que deixou se apaixonar. E você? Se rendeu aos encantos daquelas curvas? É cilada, parceiro.

– Não, acho que não. Mas é legal estar com ela, sei lá, parece que ela me liberta de todas as amarras e convenções. Hoje eu realmente só estava a fim de fotografar as estrelas mesmo, ela está com a Camila. Sabe tocar Californication?

– Sei. – Carlos começou a tocar e cantar.

2174a5342154090fcd600cb3a5468647.400x300x1Camila e Lucas se sentaram em um canto, em poucos minutos de conversa, eles pareciam discutir baixinho. Lucas levantou-se, pegou a moto e foi embora.

– Está tudo bem? – perguntei a ela quando se aproximou.

– Rompemos. Vamos logo terminar com isso antes que eles sequem as garrafas. – abriu aquele sorriso encantador.

Alessandro também se juntou aos outros e começou a beber, fez uma fogueira, vez ou outra vinha tirar uma foto da lua e se frustrava quando errava o nome de uma constelação e se sentia um bobo na minha frente. Isso me fazia rir dele. Tão grande e parecia um menino. As fotografias tiradas já eram suficientes. Camila tirou a roupa na frente de Carlos e correu pra água, ele também se despiu e foi atrás dela. Dentro da água os dois se beijaram.

– Espera! – disse Camila. – Você não é casado com a Janaína?

– Meras formalidades, história meio difícil de explicar, outro dia ela te conta. É… Se importa se eu chamar meu mais novo amigo pra cá?

– Não. Já estava de olho nele mesmo quando nos encontramos no apartamento. Uma coisa eu admito, Jana tem bom gosto. E além do mais, acho que ela e Alessandro vão querer conversar a sós. RAFAEL! VEM CÁ! – Camila gritou.

Ele foi até eles. Não havia esse ser no mundo que não se encantasse com Camila, seu jeito de ninfeta, seu corpo pequeno e milimetricamente perfeito, tinha covinhas nas bochechas que ficavam evidentes quando ela sorria. Saíram da água, era quase impossível qualquer contato alí, as ondas não deixavam. Ficaram em cima de algumas roupas pelo chão.

– Eu nunca fiquei com dois caras ao mesmo tempo. – Camila falou sem graça.

– Relaxa! A gente não precisa fazer se você não quiser. – Carlos a respondeu.

– Eu quero, só não sei o que fazer, assim… sei lá.

– Tudo bem! A gente vai um de cada vez… Quer saber? Faz o que você quiser, a gente obedece.

Os olhos de Camila brilharam. Sentou-se no colo de Carlos, fechou os olhos e cavalgou. Lento. Intenso. Com desejo. Rafael a acariciava por trás, afastava seus cachos para o lado, e beijava seu pescoço, transar a três já era hábito pra ele, sabia ser paciente. Carlos estava hipnotizado ao ver seu corpo se movimentar, às vezes ela abria os olhos que se encontravam com os deles, entrelaçava suas mãos nas dele, procurando apoio, fechava os olhos outra vez e continuava o ritmo. As mãos de Rafael tocavam seus seios, virava seu rosto um pouco para trás e se beijavam. Eu os observava por alguns instantes de vez em quando, parecia tudo correr em câmera lenta, dava pra ver tesão evaporando dos corpos dos três. Rafael cravou as mãos nas coxas de Camila.

– Está preparada? – ele perguntou.

-Sim. – disse ela com voz embargada.

Rafael a penetrou por trás, com o máximo de cuidado que conseguiu. O rosto de Camila indicando uma leve dor fez Carlos vibrar, os dois a penetraram juntos, Camila estava em tamanho êxtase, não controlava seus músculos, seu corpo estava tomado pela libido e não demorou muito para chegar ao orgasmo, voltou do seu transe e pediu para que parassem. Eles atenderam.

Alessandro estava sentado bem próximo às ondas, trouxe bebida pra gente e sentei ao seu lado, as ondas molhavam nossas pernas. Eu sei que ele quase não bebe, não é à toa que sempre roubo suas garrafas de Bourbon, mas naquela noite ele precisava, eu queria seu corpo e ele queria meus sentimentos, barganha nada justa. Eu queria partir pro carnal e ele queria abrir seus braços, seu coração e pra receber o que eu queria, teria que ceder um pouco.

– Está mais calmo? Quer conversar? – perguntei enquanto acendia um baseado, era o segundo daquela noite. – Pega.

Ele pegou, o que me espantou, ele não fuma nem cigarro. Tragou e se engasgou.

– Traga, segura um pouco e solta depois, com calma. – falei depois de rir bastante da cara dele.

– Qual é o problema comigo? Eu não sou o cara descolado o suficiente pra você? Olha, eu tentei não sentir nada, assim como quando eu saía com outras garotas e no dia seguinte elas eram só um número a mais na agenda. Você era pra ser só a paciente mais maluca que tive, a vizinha gostosa. Mas não, eu observei você demais, fiquei te olhando dançar igual uma louca com uma garrafa de vinho pela sala, se encostar nua na sacada pra fumar um cigarro, colocar essa mecha de cabelo atrás da orelha, te fiz sorrir com uma piada sem graça porque você veio pro meu apartamento quando estava com medo de trovões. Mas que… droga! Você tem medo de trovões. Não era pra eu saber dessas coisas, que você não dorme com ninguém não porque tem que acordar cedo para dar aula, mas é porque você tem pesadelos horríveis à noite.

– Você é meu psicólogo, é normal que conheça meus medos. A diferença foi você ter se atraído por eles. Nunca ouviu falar que quando você olha para o abismo ele te olha de volta? Eu não sei o que você quer de mim, porque você sabe que não vou te amar. As pessoas vivem muito bem sem amor, sem ter que se preocuparem com outro alguém, elas vivem bem sem se sentirem como objetos de alguém, elas só não querem admitir isso, porque vai contra tudo que o papai e a mamãe ensinaram. Vai ver, o fato de meus pais não terem me dado um cachorro quando eu era pequena tenha me deixado assim, o fato de eu ter saído de casa cedo, o fato de ter sido abusada, você mesmo já me deu várias teorias, eu só aprendi a gostar de mim mesma.

– Você pode aprender a se deixar ser amada por outro alguém. Qual o seu real medo?

– Você já fumou beck quase todo, de uma só vez, você nunca fumou sequer um cigarro. Como você está se sentindo?

Por alguns instantes ele olhou pra mim, piscou por várias vezes, sorri pra ele.

– Ah, entendi, você tem que voltar para o céu. – o olhei espantada e ele apontou para as minhas costas. – Suas asas estão se mexendo. Você é um anjo, Janaína, ou um demônio? Sei lá.

– Nossa, você ficou bem louco! Está vendo até minha tatuagem ganhar vida. – Ri muito e o beijei por uns segundos. – É bem isso que vai acontecer comigo se eu provar do amor.

– Eu te aplico pequenas doses, eu prometo. – ele nem sabia o que falava. – Só aquiete essas asas pra elas não se machucarem. Meu anjo.

 Estávamos sem roupas e pra me excitar perto dele não precisava muito, bastava eu sentir seu cheiro, ele tinha um cheiro de sexo, era o que evitava que eu me afastasse dele por completo. Despertava meu instinto animal, e era só o que eu respeitava, meu instinto de sobrevivência, e eu não sobreviveria se não o devorasse naquela hora. Não nos importamos com as ondas que nos jogavam com força um pra cima do outro. Mas o tirei da água, do jeito que ele estava, não aguentaria tirá-lo se ele resolvesse do nada ir para o fundo. Embaixo de umas árvores, estiquei minha toalha. Fiquei por cima dele, não podíamos tocar um no outro por causa da areia, então tinha que ser um encaixe perfeito. Ele não tinha um pouco de noção que podíamos nos machucar se nos sujássemos muito, apertou meus seios assim mesmo, me puxou pra perto para que eu o beijasse, tentou ficar por cima de mim, “não deixe sair”, sussurrei em seu ouvido, ele conseguiu se manter dentro de mim, mesmo ao nos virarmos. Levantou minhas pernas, “pequenas doses”, ele piscou ao falar pra mim, balancei a cabeça consentindo. Me penetrou em ritmo devagar e intenso, aumentou a velocidade, me esperou gozar e quando sentiu meu orgasmo, foi parando devagar, enfiou o rosto entre meus cabelos.

– Não vou conseguir. – sussurrou ofegante.

– Tudo bem, eu cheguei lá. Não se preocupe. – virei o rosto e o beijei.

Eram umas quatro horas da manhã, quando fomos embora. Mas eu não sei como ficaremos a partir disso. Não costumo alimentar esperanças de ninguém, então estou aqui visualizando e pensando se respondo sua mensagem de bom dia.

Pequenas doses, ele disse.

Bella Carvalho
Aspirante à tantas coisas foi cursar museologia, contista em horas vagas e de insônias. Ainda não sabe se é só de zoeiras ou da vibe do amor, mas de uma coisa essa morena tem certeza, entre o nascer e o morrer, aproveitemos os carnavais e bacanais. Fale com ela pelo e-mail: bella@derepente.blog.br