Essa noite a pauta é muito incomum da mina Nayana Aquere: falar sobre sofrer por amor. Quem nunca não é mesmo? Quem nunca ficou olhando para o telefone esperando uma notificação de mensagem ou pulou da cadeira quando aquela pessoa mandou um WhatsApp? Passou noites morrendo de saudade inconsolado(a), preocupado(a) se a outra pessoa está bem ou feliz, quem nunca confessou com lagrimas as desventuras e os momentos felizes com sorrisos para o travesseiro? Quem nunca teve que ir embora mas querendo ficar, sair de um abraço desejando que ele durasse bem mais, se pegou bobo(a) olhando, ouvindo ou assistindo coisas que lembram ou tem tanto da pessoa? Quem nunca amou despretensiosamente sem ser correspondido(a)? Quem nunca amou calado(a)? Quem nunca?

Quem me conhece sabe que eu trato sobre amor e paixão de maneiras bem distintas mas desta vez, somente desta vez, vou me permitir falar de amor com espaço para a interpretação mais ampla e ambígua possível, pois não dá pra falar de maneira assertiva sobre algo que ser humano algum é capaz de explicar e que somos tão pequenos para conseguir conter a ponto de que temos que dividir com outra(s) pessoa(s).

A palavra sofrimento remete a algo ruim e amar tem muito disso, mas mesmo assim torna as pessoas felizes. Então vou simplesmente falar de amor oito vezes neste texto, ou se preferir, em oito atos: A surpresa, A descoberta, O Carnaval, O Encanto, A Efervescência, O Desencanto, O Desapego A Liberdade.

A primeira vez, o primeiro ato: A surpresa.

surpresaO sofrimento por amor começa no exato momento em que você desconfia de que está amando alguém. Você se anima, se enrola, não tem certeza se é isso mesmo ou se a outra pessoa também está interessada. Começa ai um pequeno duelo de ideia e as questões emocionais começam a aparecer, mas nada que incomode. Surge aquela expectativa de que alvo vai ou pode acontecer.

Essa é uma das melhores fases de todas, afinal se você começa a perceber que existe condições da coisa avançar, tudo fica muito interessante. Você ainda não stalkeia o perfil da pessoa, quer conversar toda hora e o assunto nunca termina, quer estar junto boa parte do tempo, de repente parece que vocês combinam tanto, e se não combinam parece que dão certo até nos desentendimentos. Caso o cenário pareça não corresponder tanto, você sofre com uma pequena quebra de expectativa, mas nada que te derrube de fato. Você sofre em dois momentos: de expectativa pelo que pode vir ou por lamentar o fato de que foi só impressão sua.

A segunda vez, o segundo ato: A descoberta.

descobertaFase extremamente animadora, você se flagra pensando na pessoa e de repente assume para você mesmo(a) que está gostando de alguém, começa a pensar nos dois juntos, rola aquele lance de breves ciúmes e então as investidas já são mais incisivas e diretas pois você sabe que quer. É nessa fase que os ficas rolam, os primeiros beijos, amassos, pegadas. Se você que lê já está nesta fase com o(a) sua atual affair, se recorda como foi o primeiro beijo? A sensação e o toque? O que rolou naquela hora? Pois então. Nesta fase você sofre pois os sentimentos vão se tornando mais sólidos e latentes. Independentemente do tipo de relacionamento que se tenha ou pretenda, esta é uma das fases mais intensas pois é a da novidade. Nesse ponto você vai sofrer pela avalanche de sensações que podem ser boas e gerar muita ansiedade e expectativa, assim como incertezas, ou perceber que não era exatamente o que você esperava.

A terceira vez, o terceiro ato: O carnaval.

confetesÉ aqui onde os confetes são jogados para o alto. Como diria Zé “Deus” Ramalho: “Eu vou te jogar em um pano de guardar confetes”. As coisas já são mais claras, você já tem uma direção do que esperar e aprende o mínimo sobre a pessoa para ter um pouco de segurança nos passos e decidir se terá cautela ou se deixará levar de maneira desguiada. Essa fase já tem história e se pode sofrer por diversas coisas: medo de que algo dê errado e desande, ciúmes, aquelas mensagens ou curtidas do(a) ex ou do(a) outro(a) nas publicações de mídias sociais.

Tem gente que abraça a filosofia stalker nesta fase de uma forma que mano, vira a própria CIA. Você gosta pra cacete e ao mesmo tempo tudo pode fazer com que você se sinta inseguro(a), sofre por ainda estar descobrindo a pessoa, por se esforçar pra tentar agradar, não gosta de brigar e quando você dá deslizes, sofre por não se perdoar por ter dado mancada. Se atropela com o que diz, com o que sente e comete excessos nas demonstrações de afeto muitas vezes. Essa é a fase em que se tem a maior possibilidade de se expor demais para a outra parte. Você também pode desconfiar que tem planos diferentes da outra parte para relação.

A quarta vez, o quarto ato: O encanto.

encantoSe você chegou nesta fase meu amigo ou minha amiga, te prepara que aqui é que o couro come. Aqui você se encanta pelas qualidades e decide se vale ou não a pena quando compara com aquilo que pra você sai caro lidar. Aqui a felicidade e o sofrimento andam de mãos dadas. As questões já são bem definidas entre vocês e as pessoas costumam saber o que esperar da outra parte e ter o tipo de relação mais do que bem delineadas.

Aqui você pode até sofrer por insegurança, mas pontualmente. Muita água já rolou com desentendimentos e vocês já sabem como conversar e tratar um com o outro, até o sofrimento é mais estável pois se não desandou nas fases anteriores, não é por qualquer besteira que vai, o problema é que aqui as tretas são realmente peso, pois a paciência já não é a mesma do carnaval, as coisas não são tão toleráveis e as brigas ganham formas mais pesadas, com aqueles papos de “quero dar um tempo”. Pra relações fechadas é uma fase incrível de estabilidade ou de danação com insegurança e medos. Aqui amiguinhos, você sofre justamente por ter uma ideia clara do cenário e o benefício da dúvida ser cada vez mais raro. Sofre também por ter as emoções sobre a outra pessoa mais estáveis, e quando abaladas, dói.

A quinta vez, o quinto ato: A efervescência.

efervescenciaNeste ato o couro já comeu o que tinha que comer, é a fase de sofrimento mais estável, onde você sofre mas por coisas que certamente já esperava ou desconfiava. Já sabe o que pensar, o que quer e o que não quer, assim como também a outra parte. Se na fase anterior, quando os problemas entraram pela porta e o amor não pulou pela janela, você chegou aqui e aprende a ser feliz pelo simples fato de amar, sofre por tudo o que tem que fazer, dizer pela relação ou pela outra pessoa, mas por algum motivo não pode. É a fase de pensar no que a história é e no que poderia ter sido. Parece a mais maneira e simples de todas as fases, mas você se engana jovem, pois essa é a fase das decisões e de transformar as incertezas que sobraram em certezas e encarar a verdade.

Não tem mais carnaval, não tem mais encanto. É o pico da curva, ou a relação se sustenta aqui e oscila entre altos e baixos ou vai despencar gradativamente, de uma vez por todas. O maior sofrimento desta fase é saber se definitivamente a coisa vai ou racha. Na verdade, até quando vai e quando possivelmente irá rachar visto que nessa vida tudo tem um início, meio e fim.

A sexta vez, o sexto ato: O desencanto.

desencantoA fase do amor mais madura, onde você descobre que para uma relação se sustentar não basta somente o que se sente, mas principalmente respeito, companheirismo, cumplicidade e desejo de flexibilizar pelo outro de ambas as partes. Tudo o que foi construído nas outras fases cai aqui e as águas são divididas entre o que é real e não é, entre o que é concreto e o que era historinha embalada por romantismo da Disney. O príncipe já virou sapo, a princesa já não é encantada e você sofre bem menos, mas sofre.

É nessa fase plena em que você aprende a ligar o botão do foda-se para as coisas e doma a arte de relevar. Você não chega neste momento de maneira alguma se houver alguma coisa na outra parte que você não consiga suportar, e se as qualidades da pessoa na balança não pesarem mais do que os pontos difíceis de lidar.

Se lembra que na fase anterior eu falei das oscilações? Então, a fase anterior são os pontos altos e este é o ponto baixo. Fica alternando entre com felicidades e questões difíceis.

Aqui é: “Quanto ao pano dos confetes, já passou o meu carnaval”.

A sétima vez, o sétimo ato: O desapego.

desapegoAqui o botão do foda-se rola solto, você sai das oscilações e a curva da relação começa a sua queda ou segue firme um reta linear em que você joga tudo pro alto ou fica de boas, não cria expectativas, não espera nada da outra parte e não quer nem se bater com nada. O sofrimento das outras fases bateu tanto em você que decidiu que quem sabe não vale tanto a pena investir, seja pela própria condição da relação ou simplesmente pela outra parte não corresponder ou estar em outras frequências. Isso é muito comum.

Esta fase concentra alguns pontos de sofrimento e as vezes você pensa em ceder, ou se pergunta se deve ou não insistir, avançar, ou ficar na sua e ver no que dá. Não chega a ser algo como “tanto faz tanto fez”, mas por ter aprendido a não criar mais expectativas, logo não espera coisas. O que vier será bem-vindo e se nada vier, tá tudo bem também. Aqui bate de novo aquela sensação de um filme na cabeça de tudo o que rolou e você compara com o que esperava que fosse ainda na fase do carnaval. Esta é a fase que te encaminha para a que mais te importa: a liberdade.

Aqui é: “No mais, estou indo embora baby baby”.

A oitava vez, o oitavo ato: A liberdade.

liberdadeNão importa o rumo que tenha tomado a coisa, se você decidiu que vai continuar ou que é o momento de terminar. Aqui você chega no nirvana pois não sofre. Aqui você descobre que se está condicionado(a) a amar a outra parte, o fará mas sem aquele sentimento de obrigatoriedade e cobrança, será algo que simplesmente ocorre sem a menor pretensão de que seja correspondido, de estar juntos, de que a pessoa esteja contigo e etc… Você gosta simplesmente. O que te causa dor e sofrimento basicamente é a dor e sofrimento da pessoa que é alvo do seu afeto. O que te importa é que a pessoa seja feliz e esteja bem, independente de com quem ou da maneira.

Esse ato é o que a maioria das pessoas irá nascer, viver e morrer sem nunca experimentar, pois exige desapego de si mesmo e especialmente a quebra de diversos tabus que vão desde o sentimento de propriedade até o que se convenciona quanto a fidelidade, terminando com a desconstrução de pelo menos 95% do que temos culturalmente como o amor romântico e até mesmo o conceito de ser trouxa. Alias, aqui não existem trouxas. Se você não botou a relação na conta da vida na fase anterior e seguiu com ela, é por estar consciente sobre TUDO. Não existem mais culpados, enganados e enganadores. Aqui as coisas são plenas. Na minha singela opinião, o mais sublime dos oito atos do amor.

Então…

Falar sobre amor é algo muito complexo e costumo dividir ele em oito atos com base nas coisas que ouço e até mesmo experiências pessoais. Se você me perguntar quanto tempo leva para percorrer todas as fases, vou te dizer que não leva. Relacionamentos são feitos por pessoas e pessoas são complexas. Tem relações amorosas que não terão todos os oito atos, algumas pulam atos, algumas já começam direto no carnaval ou em outra fase. Já vi histórias que começaram na liberdade direto. Além do que, os atos não são regras, podem acontecer de maneiras bem diferentes para cada casal.

Os atos não possuem linearidade, ordem especifica ou obrigatoriedade em ocorrer. Eles apenas existem e podem rolar para uns, enquanto não para outros.

Para terminar gostaria de deixar aqui a sugestão dois filmes para que você assista. Eles falam muito sobre o que foi dito aqui. Eu considero os dois muito legais e tocantes: o primeiro é “Tudo Pode Dar Certo”, comédia de Woody Allen e o filme “Amor”, de Michael Haneke. Assista, ria, chore e depois me conte: Você já amou? Para você, o que é amor?

TudoPodeDarCerto01

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Acauã Pyatã
Na maior parte do tempo: publicitário e blogueiro, nas raras horas vagas um tremendo vadio de skate e desocupado no Insta. Insurgente, divergente e procrastinador. O tipinho de cara que escolheu morrer de pé ao ter que (sobre)viver de joelhos, alguém que escolheu ser a navalha ao invés da carne, um homem que absolutamente não é obrigado a nada, entendeu? N-A-D-A. Um maldito índio moderno em uma arcaica selva de pedra que um dia haverá de cair. Mas não agora, não mesmo. Fale com ele pelo e-mail: diego@derepente.blog.br