Me recordo de quando era criança e adolescente, exigia ser tratado como adulto, era louco para ficar logo mais velho, trabalhar e poder comprar todos os brinquedos, vídeo games e fazer os cursos de música e artes que eu curtia. Quando no inicio da minha adolescência começaram a aparecer as primeiras pelugens no meu rosto, achei o máximo, comprei o meu primeiro barbeado amarelinho aos 12 anos. Aos 15 já tinha tanta barba no rosto que só conseguia fazer ela com MAC3, os demais barbeadores agrediam a pele em virtude da barba ser extremamente densa e de raiz profunda. Após os 15 anos de idade, os anos voaram como dias, de repente me vi adulto.

Quando você é jovem como uma criança ou adolescente, o mundo é um parque de diversões, tudo é novo e inédito, pequenas aventuras proporcionam grandes emoções. Me lembro de quando tinha 16 anos e tive que me esconder no guarda-roupas do quarto de uma garota, pois os pais dela voltaram mais cedo do que o esperado. Quando adulto já passei por situações parecidas, mas não foi tão legal como na primeira vez.

A medida que os anos avançam, você começa a perceber que ter barba é um saco, que as garotas são mais complicadas pois elas esperam bem mais de um homem, além de ser bonitinho e bom de conversa, existem muitas outras coisas tangíveis e intangíveis que elas consideram. Acordar cedo para ir pro colégio e estudar era chato, mas não tanto quanto ter que ir rotineiramente para o trabalhar, cumprir afazeres que mesmo em uma profissão que você ama (meu caso), com a repetição e anos acabam se tornando pesadamente entediantes. Quando você tinha 15 anos e tinha os pés fora do solo e a cabeça nas nuvens não imaginava, mas ser adulto é muito chato.

A vida de adulto tem diversas diversões e coisas que você como adolescente jamais teria capacidade de realizar, você experimenta a liberdade, a independência e autonomia, mas logo isso se torna comum, fazendo com que você tenha uma vida atravessada pelo cotidiano e responsabilidades. Isso é excelente pois só assim você amadurece como pessoa e cresce como individuo, são estas coisas que vão te forjar a ferro e fogo um homem ou uma mulher preparados para lidar com a vida fora da proteção dos pais, mas convenhamos que a vida de adulto é bem mais chata a maior parte do tempo do que divertida.

Você como adulto aprende a se relacionar e perceber as pessoas de uma maneira muito mais adequada, as tuas relações de amizade embora se tornem cada vez mais restritivas, também se tornam mais fortes. Você percebe com o tempo que teus amigos vão sumindo. Não tem mais aquela garotada da época de colégio afinal as pessoas viajam, casam, tem filhos, mudam de cidade, ficam sem tempo e infelizmente morrem.

Mas amigo(a) leitor(a), embora ser adulto seja relativamente chato, também existe um lado da coisa que te permite escapar disso, nem que seja para dentro de si mesmo(a). Mas como assim Diego? Somos educados a medida que vamos envelhecendo a adotar atitudes e maneiras de pensar não somente maduras, mas que também acabam por matar a criança que temos dentro de nós. O mundo pelos olhos de adultos é muito mais difícil, violento e cheio de desencantos do que os de uma criança. O ser humano nasce e cresce munido de inocência e a medida que vamos nos relacionando com o meio que nos cerca, ele se encarrega de nos transformar como indivíduos, o que não significa que ainda assim não possamos lutar para preservar o minimo de inocência e ludicidade.

Temos o mote de que adultos devem ensinar as crianças, mas esquecemos de que feliz é aquele que aprende quando ensina e quando ensina segue aprendendo. Não existe ninguém neste mundo que saiba tanto a ponto de que não possa aprender algo novo, nem tão pouco que não possa ensinar algo para alguém. As crianças tem muito a nos ensinar. Quando aprendemos que apesar dos pesares que nosso olhar de adulto nos debruça sobre a vida, ainda é possível crer que o mundo pode ser diferente, alegre e colorido, basta que você queira. Essa pequena parte da vida de um adulto compõe boa parte do que é felicidade e acredite, felicidade não é algo que a vida te entregue, mas algo que você constrói diariamente. Acredito piamente que felicidade é uma questão de escolha, que você faz todos os dias quando acorda. Se você decide que seu dia será feliz, fatalmente o será e ponto.

Adultos se perdem inerentemente em um mar de responsabilidades e obrigações cotidianas, crianças não, elas simplesmente vivem para serem felizes. Adultos tentam agradar a si mesmo e a todos de modo que consigam manter o equilíbrio entre as coisas, mas como disse o sábio Dalai Lama:

Os homens perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde.
E por pensarem ansiosamente no futuro esquecem do presente de forma que acabam por não viver nem no presente nem no futuro. E vivem como se nunca fossem morrer… e morrem como se nunca tivessem vivido.

Sempre fui levado por algum tipo de insanidade que me assola, a pensar que manter o espírito e a alma jovens são o último recurso que nos resta para não nos perder de vez em meio a tanta brutalidade, decadência e maldade promovida pelo homem sobre o próprio homem. Até então nada me convenceu de que isto não é uma verdade. Ser adulto é chato pra caramba e ser criança é maneiro. Você pode ser um adulto sério e responsável, mantendo um coração que “sente” como o de uma criança e a alma que possa ter “a mesma idade que a idade do céu” mas que se mantenha como a de um adolescente. Nesta vida precisamos de metas, objetivos, estratégias e obrigações para viver, mas mais do que isso, necessitamos grandemente de paixões e sonhos para ter pelo que viver.

Que tal começar a deixar de marra e entregar-se a tentação de voltar a ser criança? Nem que seja só com você mesmo, ou com os teus filhos. O que importa é no mar de tantas coisas que atravessam e marcam a nossa vida, entender que apesar de tantas glórias, vitórias, desencantos e derrotas ainda é possível ser plenamente feliz e viver, sentindo e vendo o mundo com os olhos de uma criança que não está morta, mas apenas dormindo dentro de você e esperando para ser despertada. Deixa de fricote e tente, vai ser muito maneiro.

Acauã Pyatã

Na maior parte do tempo: publicitário e blogueiro, nas raras horas vagas um tremendo vadio de skate e desocupado no Insta. Insurgente, divergente e procrastinador. O tipinho de cara que escolheu morrer de pé ao ter que (sobre)viver de joelhos, alguém que escolheu ser a navalha ao invés da carne, um homem que absolutamente não é obrigado a nada, entendeu? N-A-D-A. Um maldito índio moderno em uma arcaica selva de pedra que um dia haverá de cair. Mas não agora, não mesmo.

Fale com ele pelo e-mail: diego@derepente.blog.br